segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Memórias sobre rodas: quando a biblioteca chegava à vila

 Havia qualquer coisa de mágico no dia em que a biblioteca itinerante da Gulbenkian chegava à vila. O som do motor a abrandar na praça, a carrinha branca a estacionar junto ao largo, e nós, miúdos, a correr como se fosse uma festa. Era nos anos 80, um tempo mais lento, em que as tardes pareciam não acabar e a imaginação tinha espaço para crescer.

Para muitas crianças das vilas e aldeias, aquelas bibliotecas sobre rodas eram a primeira porta aberta para o mundo. Dentro da carrinha havia estantes cheias de livros gastos pelo uso, com capas já desbotadas e páginas que cheiravam a papel antigo e a histórias partilhadas. Não era apenas um empréstimo de livros; era um convite a sonhar, a viajar sem sair do sítio, a descobrir palavras que ainda não sabíamos que precisávamos.

Lembro-me do silêncio respeitoso lá dentro, interrompido apenas pelo virar das páginas e pela voz calma do bibliotecário, que parecia conhecer cada leitor pelo nome e cada livro pelo coração. Havia recomendações feitas com cuidado, como quem entrega um tesouro. Para quem vivia longe das grandes cidades, sem livrarias nem bibliotecas fixas, aquele projecto era uma verdadeira revolução discreta.

A biblioteca itinerante da Gulbenkian não levava só cultura, levava igualdade. Dava às crianças do interior as mesmas oportunidades de contacto com a leitura, com o conhecimento e com a imaginação que existiam nos centros urbanos. Plantava sementes que, muitas vezes, floresciam anos mais tarde em leitores apaixonados, professores, escritores ou simplesmente adultos com uma relação íntima com os livros.

Hoje, ao recordar esses dias, sinto uma saudade funda e uma nostalgia doce. Era um tempo em que a espera valia a pena, em que um livro podia mudar uma tarde — ou uma vida. As bibliotecas itinerantes foram mais do que um projecto cultural; foram uma presença afectiva na infância de muitos, uma memória comum que ainda hoje nos aquece. E talvez por isso, sempre que vejo um livro a ser aberto, uma parte de mim volte a ouvir o motor da carrinha a chegar à praça, anunciando que o mundo, mais uma vez, estava ali ao alcance da mão.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Balanço de um ano que não seguiu o plano — e ainda bem

Chega o momento do balanço anual e, à primeira vista, os objectivos traçados no início do ano ficaram aquém do esperado. Metas adiadas, listas por cumprir, planos riscados a meio. Mas este não foi um ano de falhanços. Foi o ano em que alcancei o primeiro e maior desejo de 2025: fui mãe.

A maternidade foi sempre um sonho silencioso, daqueles que se guardam com cuidado, entre o medo de desejar demasiado e a esperança de que, um dia, aconteça. Quando aconteceu, veio com uma alegria difícil de descrever — uma felicidade serena, profunda, transformadora. A gravidez trouxe encantamento, expectativa, um novo olhar sobre o tempo e sobre o corpo. Trouxe também uma consciência aguda de que nada volta a ser igual, e ainda bem.

Nem tudo foi leve. Foi uma gravidez de risco, feita de cuidados redobrados, de exames, de ansiedade e de uma palavra que aprendi a respeitar: repouso. Parar não foi escolha, foi necessidade. Abrandei o ritmo, suspendi planos, aceitei limites. O corpo pediu pausa, e eu aprendi — nem sempre com facilidade — a escutar.

Nesse abrandar forçado, encontrei espaço. Espaço para estar, para sentir, para pensar. E para ler. Muito. Os livros tornaram-se companhia, refúgio e viagem quando o mundo físico teve de encolher. Assim, quase sem dar por isso, ultrapassei largamente o objectivo de 12 livros por ano: li 43. Cada um deles marcou um capítulo deste ano estranho e extraordinário, ajudando-me a atravessar dias longos e noites inquietas.

Não atingi todos os objectivos que tinha traçado, é verdade. Mas alcancei algo maior do que qualquer lista poderia conter. Este foi um ano de crescimento invisível, de transformação interior, de vida a acontecer apesar — ou precisamente por causa — dos planos desfeitos.

Se este balanço me ensinou alguma coisa, foi isto: há anos em que o sucesso não se mede em produtividade, mas em amor. E este foi, sem dúvida, um ano pleno disso.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O tempo: velocidade máxima sem aviso

O tempo não pede licença. Um dia acordas e estás a tentar perceber como é que já passou outra década. As manhãs arrastam-se como moluscos, mas os anos… esses desaparecem como se tivessem um contrato secreto com o universo para nos fazer sentir sempre atrasados.

Sopras as velas do último aniversário e, puff, já estás a olhar para o próximo, a perguntar-te se alguém não terá enganado o calendário. Os cafés acabam antes de serem bebidos, os dias úteis parecem maratonas invisíveis e os fins de semana… bem, os fins de semana evaporam antes de conseguires dizer “brunch”.

Resumindo: o tempo não só corre, como ainda te pisa os calcanhares, ri de ti e publica stories sem pedir autorização. A única solução é rir também — porque se o tempo é um velocista, nós só podemos ser espectadores… e talvez, muito ocasionalmente, tropeçar na meta.

sábado, 15 de novembro de 2025

Quando ele trocou a cidade pela minha aldeia

Nunca pensei que alguém trocasse o pulso acelerado da cidade pelo silêncio vivo da minha aldeia — e muito menos por mim. Mas ele fê-lo, com a coragem tranquila que sempre o definiu, mesmo quando tudo à sua volta parecia empurrá-lo na direcção contrária.

Quando disse à família que ia mudar-se para o campo, para uma aldeia “onde não há nada”, como eles diziam, vieram as críticas. Chamaram-lhe impulsivo, inconsciente, romântico em excesso, louco até. “Vais fechar-te num sítio perdido”, “vais desperdiçar oportunidades”, “vais arrepender-te”. Não aceitavam que alguém pudesse escolher uma vida mais lenta quando tinha uma tão rápida à disposição. Não entendiam que ele não estava a desistir de nada — estava, pela primeira vez, a escolher.

Lembro-me da primeira semana dele aqui. Enquanto a família suspirava por mensagens e telefonemas, à espera do tal arrependimento, ele andava de botas na terra, mãos nos bolsos, olhos a absorver tudo como quem reaprende a ver. O som dos pássaros, o cheiro da lenha, os cumprimentos simples de quem passa e, mesmo sem conhecer, acena. Ele sorria com um alívio quase infantil. Dizia que finalmente respirava.

E respirávamos juntos.


A nossa felicidade começou a construir-se ali, no pequeno quotidiano sem pressas. Nas manhãs em que o vi aprender a acender o fogão a lenha. Nas tardes em que íamos a pé até ao rio, falando de tudo e de nada. Nas noites em que o silêncio da aldeia não assustava — embalava.

Com o tempo, ele começou a perceber a verdadeira riqueza destas gentes: a forma como cuidam uns dos outros, como se juntam para uma vindima, como aparecem à porta com um saco de batatas “porque sim”, como fazem do pouco tudo. Ele chegou a dizer, um dia, enquanto o via conversar com o nosso vizinho mais velho: “Isto… isto é família.”

E sorri. Porque, sem saber, tinha acabado de descobrir aquilo que eu sempre soube.

A família não é apenas quem partilha sangue connosco — é quem partilha vida. É quem fica, quem abraça, quem puxa uma cadeira e chama “anda cá”. Aqui, no campo, ele aprendeu isso. E eu aprendi que o amor, quando é verdadeiro, não nos prende — guia-nos.

Hoje, quando olhamos para trás, percebemos que a mudança não foi uma renúncia. Foi um regresso. Não à aldeia — mas a nós mesmos. Ao essencial.

Ele veio para viver um grande amor. E encontrou dois: o nosso e o da terra que agora também o reclama como seu.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Frutos de Outono

O outono chega sempre com uma paleta de cores quentes e sabores únicos. É a estação em que a natureza abranda, as folhas caem, e as árvores nos oferecem algumas das frutas mais curiosas e ricas da época: marmelos, dióspiros e romãs.

O marmelo, com o seu aroma inconfundível e textura firme, é uma dessas frutas que dividem opiniões. Tradicionalmente, é cozinhado para fazer marmelada — doce típico das casas portuguesas, muitas vezes guardado em potes e coberto com papel vegetal. Mas confesso: eu gosto de marmelos crus. Sim, crus! Cortados em fatias fininhas, com aquela acidez viva e o toque áspero na boca — há algo de autêntico e puro nesse sabor, quase esquecido por quem só os conhece em forma de doce.

Já o dióspiro é, para muitos, o símbolo do outono. Laranja, macio e doce, é amado por uns e rejeitado por outros — e eu fico no segundo grupo. Não como dióspiro. Nunca me conquistou a textura, nem o sabor demasiado maduro. Mas admito: é uma fruta bonita de se ver, com aquele brilho de sol de fim de tarde.

E há ainda a romã, rainha discreta da estação. Por fora, parece austera; por dentro, é um universo de pequenas joias vermelhas, doces e ligeiramente ácidas. Comer romãs é quase um ritual — abrir, separar, saborear — um exercício de paciência recompensado pela explosão de frescura.

O outono é isto: uma mistura de sabores intensos, de contrastes e preferências. Entre o amargo e o doce, o suave e o ácido, há sempre uma fruta que fala connosco.



terça-feira, 28 de outubro de 2025

Primeiros dias de chuva na aldeia

Começa com o cheiro da terra molhada. É sempre assim. Abro a janela e o ar entra frio, carregado de outono. As telhas batem com o som da primeira chuva, e parece que a casa toda se encolhe um bocadinho, a preparar-se para o tempo novo.

Lá fora, o campo muda de cor — o verde fica mais escuro, a estrada brilha e o nevoeiro vem descendo devagar, cobrindo os montes. As galinhas fogem a correr para o galinheiro, o gato instala-se junto ao fogão e a vizinha grita do outro lado do muro:

“Agora sim, menina, já cheira a castanhas!”

Na cozinha, a panela já está ao lume. A sopa borbulha, o vapor embacia os vidros e o cheiro mistura-se com o do café acabado de fazer. A lenha estala devagar e a casa fica com aquele barulho quente que só o fogo sabe fazer.

O tempo abranda. A chuva marca o ritmo.

Ouço o sino da igreja lá ao fundo, o vento a bater nas portadas, e o cão resmunga porque não quer sair. Tudo parece mais pequeno, mais perto, mais nosso.

Pego numa manta, sento-me à janela e fico a ver as gotas escorrerem. Não há pressa, nem planos — só este sossego molhado que chega todos os anos e me faz lembrar porque gosto tanto de viver aqui.

Os primeiros dias de chuva na aldeia são assim: um bocadinho frios, um bocadinho nostálgicos, e completamente perfeitos para ficar em casa.

sábado, 11 de outubro de 2025

Meu amor pequenino

Ainda mal chegaste e já mudaste tudo. O tempo, o ar, o som da casa — tudo parece diferente desde que te tenho nos braços. Há dias que não sei se é dia ou noite, mas sei que cada segundo contigo é um milagre.

Quando te olho, tão pequeno e perfeito, o mundo pára. Sinto uma ternura que não cabe em palavras, um amor que nasceu comigo mas que só agora descobri o tamanho que pode ter. És o pedaço de mim que eu não sabia que faltava.

O teu primeiro choro foi o som mais bonito que alguma vez ouvi. O toque da tua pele, o calor do teu corpo, o peso leve da tua cabeça adormecida no meu peito — tudo em ti é um encanto silencioso que me desarma.

Prometo que vou aprender contigo. Que vou ser paciente, mesmo quando o sono faltar. Que vou ser o teu abrigo, o teu colo, o teu lugar seguro. Prometo que te vou ensinar a ser livre, mas também a saber voltar a casa.

Meu amor, a vida antes de ti era boa, mas agora faz sentido.

♥️


Memórias sobre rodas: quando a biblioteca chegava à vila

 Havia qualquer coisa de mágico no dia em que a biblioteca itinerante da Gulbenkian chegava à vila. O som do motor a abrandar na praça, a ca...