Havia qualquer coisa de mágico no dia em que a biblioteca itinerante da Gulbenkian chegava à vila. O som do motor a abrandar na praça, a carrinha branca a estacionar junto ao largo, e nós, miúdos, a correr como se fosse uma festa. Era nos anos 80, um tempo mais lento, em que as tardes pareciam não acabar e a imaginação tinha espaço para crescer.
Para muitas crianças das vilas e aldeias, aquelas bibliotecas sobre rodas eram a primeira porta aberta para o mundo. Dentro da carrinha havia estantes cheias de livros gastos pelo uso, com capas já desbotadas e páginas que cheiravam a papel antigo e a histórias partilhadas. Não era apenas um empréstimo de livros; era um convite a sonhar, a viajar sem sair do sítio, a descobrir palavras que ainda não sabíamos que precisávamos.
Lembro-me do silêncio respeitoso lá dentro, interrompido apenas pelo virar das páginas e pela voz calma do bibliotecário, que parecia conhecer cada leitor pelo nome e cada livro pelo coração. Havia recomendações feitas com cuidado, como quem entrega um tesouro. Para quem vivia longe das grandes cidades, sem livrarias nem bibliotecas fixas, aquele projecto era uma verdadeira revolução discreta.
A biblioteca itinerante da Gulbenkian não levava só cultura, levava igualdade. Dava às crianças do interior as mesmas oportunidades de contacto com a leitura, com o conhecimento e com a imaginação que existiam nos centros urbanos. Plantava sementes que, muitas vezes, floresciam anos mais tarde em leitores apaixonados, professores, escritores ou simplesmente adultos com uma relação íntima com os livros.
Hoje, ao recordar esses dias, sinto uma saudade funda e uma nostalgia doce. Era um tempo em que a espera valia a pena, em que um livro podia mudar uma tarde — ou uma vida. As bibliotecas itinerantes foram mais do que um projecto cultural; foram uma presença afectiva na infância de muitos, uma memória comum que ainda hoje nos aquece. E talvez por isso, sempre que vejo um livro a ser aberto, uma parte de mim volte a ouvir o motor da carrinha a chegar à praça, anunciando que o mundo, mais uma vez, estava ali ao alcance da mão.
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