sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Gravidez depois dos 40 anos

Nunca pensei que fosse escrever estas palavras: estou grávida. E, mais ainda, que as escreveria depois dos 40.

Durante muitos anos, a maternidade foi um “talvez”. Um sonho guardado numa gaveta, entre o medo de chegar tarde e a sensação de que o tempo certo nunca vinha. Até que um dia, sem planos nem expectativas, a vida decidiu surpreender-me.

Lembro-me da primeira ecografia — o som do coraçãozinho, rápido, firme, quase impaciente. Chorei. Chorei porque, de repente, tudo fez sentido. Era como se o meu corpo, tantas vezes criticado por ser “maduro demais” para isto, me dissesse em silêncio: “Eu consigo”.

A gravidez não foi perfeita. Tive cansaços que nunca imaginei, dores que vinham sem aviso, exames que me deixavam em suspenso. Mas, ao mesmo tempo, vivi uma serenidade que talvez só a idade traga. Já não me preocupei tanto com o que “devia ser”. Aprendi a ouvir o meu corpo, a confiar no ritmo dele, a aceitar a lentidão, o medo e o milagre de cada pequeno avanço.

O parto… foi o momento mais intenso da minha vida. O tempo parou. Lembro-me da força — não a força física, mas a outra, a que vem de dentro, de um lugar antigo e misterioso. Quando finalmente o ouvi chorar, percebi que nunca mais seria a mesma. Era o som mais puro e verdadeiro que já escutei.

Agora, quando o seguro nos braços, olho para ele e penso em tudo o que precisei viver antes de o conhecer. Em todas as versões de mim que tive de deixar para trás.

Ser mãe depois dos 40 não é ser mãe “tarde demais”. É ser mãe no momento certo. No momento em que o amor já sabe esperar, ouvir, e ficar.


quarta-feira, 8 de outubro de 2025

A pequena alegria de ver o bebé a fazer cócó

Há alegrias que só os pais entendem. Uma delas — talvez a mais inesperada de todas — é ver o nosso bebé… a fazer cócó.

Sim, eu sei. Antes de ser mãe/pai, se alguém me dissesse que um dia eu iria comemorar fezes com o mesmo entusiasmo de quem ganha o Euromilhões, eu ria. Mas a verdade é que chega aquele momento em que o bebé passa dois dias sem dar sinais, e de repente, quando finalmente acontece… há música, há aplausos, há quase fogo de artifício.

Tudo começa com aquela expressão inconfundível: o olhar concentrado, a testa franzida, o silêncio solene. O bebé fica imóvel, como se o universo parasse à sua volta. E nós, em total empatia, ficamos também ali, quietos, quase a prender a respiração — a torcer, discretamente.

E quando o feito se concretiza, a alegria é pura. Um alívio que não é só dele — é nosso também. Porque o cócó do bebé é, de alguma forma, uma pequena prova de que tudo está bem. Que o corpo funciona, que o leite alimenta, que o mundo segue o seu ritmo.

Depois vem o “momento limpeza”, claro. Nem sempre glorioso, às vezes verdadeiramente desafiante. Mas até isso tem graça. Porque é impossível não sorrir quando aquele ser pequenino, com ar de missão cumprida, nos olha como quem diz: “Vês, consegui.”

E nós olhamos de volta, meio derretidos, meio orgulhosos, e pensamos que nunca imaginaríamos encontrar tanta ternura… num momento tão simples, tão natural, tão — digamos — aromático.

Ser pai ou mãe é mesmo isso: descobrir que até o cócó pode ser uma celebração da vida.


segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Manual de sobrevivência para mulheres normais (ou quase)

Há dias em que acordo a sentir-me poderosa. Penteio o cabelo, ponho rímel, visto uma roupa gira e penso: “Hoje sim, hoje vou conquistar o mundo.”

Depois o mundo começa a responder — o autocarro atrasa-se, o café vem morno, o chefe manda um e-mail com “urgente” no assunto e o gato vomita em cima da minha mala.

Ser mulher moderna é isto: um equilíbrio instável entre o “tenho tudo sob controlo” e o “vou emigrar para uma cabana no Gerês sem Wi-Fi”.

As revistas dizem que devemos ser independentes e confiantes. Eu digo que, se consegui chegar ao fim do dia sem ameaçar ninguém e com o cabelo ainda preso num elástico, já é vitória.

Aprendi que o segredo da felicidade é simples: ter expectativas baixas. Assim, quando o jantar fica intragável, chamamos “fusão culinária”. Quando o namorado esquece o aniversário, é “minimalismo emocional”. E quando alguém nos diz “estás diferente”, respondemos “é o filtro da vida real”.

Resumindo: sobrevivemos. E com um certo estilo — mesmo que esse estilo envolva pantufas e uma caneca de chá às 22h.


sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Bombeiros - muito obrigada/o

Num verão marcado pelo calor intenso e pela ameaça constante das chamas, os incêndios voltaram a pôr à prova a coragem e a resiliência de todos. Entre o perigo e a incerteza, os bombeiros — verdadeiros soldados da paz — enfrentaram o fogo com determinação inabalável, arriscando a própria vida para proteger pessoas, animais e bens.

Enquanto o crime de fogo posto continua a destruir não só a paisagem, mas também memórias e sonhos, cresce a indignação da comunidade e a necessidade de justiça. No entanto, perante cada foco de incêndio, ergue-se a força destes homens e mulheres que, com abnegação e espírito de missão, avançam quando todos recuam.

Hoje e sempre, o nosso agradecimento é profundo. Aos bombeiros, símbolo maior de coragem, deixamos a promessa de nunca esquecer o seu sacrifício e de honrar o seu compromisso com a vida.

Obrigado/a, a nossa gratidão pela vossa dedicação.


sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Desligar para recarregar: a decisão de ficar offline

Num mundo cada vez mais conectado, em que as notificações não param e o ritmo parece sempre acelerado, tomei uma decisão que, para muitos, pode parecer radical: passar um dia por semana completamente offline.

A escolha não foi impulsiva. Foi o resultado de um cansaço acumulado, de uma sensação constante de estar “ligado” a tudo, mas desconectado de mim próprio. As redes sociais, os emails, as mensagens — tudo exigia atenção imediata. E no meio de tanto ruído digital, comecei a sentir falta de silêncio, de foco e de presença real.

Assim nasceu o meu “dia offline”. Um dia por semana — geralmente ao domingo — em que desligo o telemóvel, não toco no computador e evito qualquer tipo de ecrã. Em vez disso, dedico o tempo a coisas simples: ler um livro, caminhar, cozinhar com calma, estar com a família, ou simplesmente não fazer nada com culpa zero.

O impacto foi imediato. Notei uma diferença enorme na minha disposição, na clareza mental e até na qualidade do meu sono. Percebi o quanto me distraía com coisas pequenas, e o quanto me escapava do presente por estar sempre a pensar no que se passava “lá fora”.

Estar offline é, para mim, uma forma de resistência. Uma forma de dizer que nem tudo tem de ser imediato, que o silêncio tem valor, e que a vida real — aquela que se vive fora dos ecrãs — merece espaço e atenção.

Não é uma fuga. É um reencontro.

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Ler por dentro, não por fora

Vivemos tempos em que tudo parece ter de ser mostrado. Até os livros que lemos. Publicam-se fotos de capas, sublinhados meticulosamente escolhidos, pilhas de leituras estrategicamente organizadas. Lê-se, sim — mas por vezes mais para acumular gostos e visualizações do que para realmente mergulhar na leitura.

Ler muito não é sinónimo de ler bem. Não importa tanto quantas páginas se viram, mas o que se retém, o que se sente, o que se transforma cá dentro. Há quem leia devagar, saboreando cada frase. Outros preferem devorar livros em série. Ambos são leitores — mas a qualidade da leitura não se mede em números.

A leitura devia ser um acto íntimo, silencioso, quase secreto. Um espaço de liberdade, não de exibição. Ler por prazer, por curiosidade, por inquietação. Ler porque se quer saber mais, viver mais, pensar melhor. E não porque se quer mostrar que se leu.

Não há mal nenhum em partilhar o que nos apaixona — pelo contrário. Mas que a leitura não se torne apenas mais um palco. Que continue a ser, acima de tudo, uma viagem interior.


sexta-feira, 18 de julho de 2025

Dissimulação: o teatro da falsidade

Vivemos numa sociedade onde a imagem frequentemente vale mais do que a essência. Nesse cenário, a dissimulação torna-se uma prática comum — e perigosamente aceite. Dissimular é esconder intenções, camuflar sentimentos, mascarar a verdade. Trata-se de uma forma subtil, e muitas vezes sofisticada, de enganar, protegida pelo verniz da conveniência social.

O dissimulado não mente de forma directa; omite, sugere, insinua. Com um sorriso cortês ou um olhar ambíguo, manipula a percepção alheia e mantém uma aparência de harmonia que esconde conflitos profundos. Em nome da convivência, sacrifica a autenticidade. Em nome da estratégia, compromete a ética.

O problema da dissimulação é que ela mina a confiança. Relações baseadas em meias-verdades não resistem ao tempo. Sociedades onde a dissimulação impera tornam-se frias, cínicas e paranóicas. É impossível construir um diálogo honesto quando não se sabe se o que é dito corresponde ao que se pensa.

Além disso, a dissimulação é uma forma de cobardia. Em vez de enfrentar as consequências da sinceridade, o dissimulado prefere o conforto da neutralidade fingida. Mas essa neutralidade é ilusória: omitir-se também é tomar partido, e calar-se diante do erro é compactuar com ele.

Não se trata de defender uma fraqueza rude ou insensível. A verdade pode — e deve — ser dita com empatia. Mas há uma diferença fundamental entre diplomacia e dissimulação. A primeira procura o equilíbrio entre verdade e respeito; a segunda, entre mentira e conveniência.

Num mundo saturado de aparências, ser autêntico é um acto de coragem. Rejeitar a dissimulação é apostar na clareza, na integridade e na construção de vínculos verdadeiros. Porque, no fim das contas, é impossível confiar em quem vive escondido atrás de máscaras.


Memórias sobre rodas: quando a biblioteca chegava à vila

 Havia qualquer coisa de mágico no dia em que a biblioteca itinerante da Gulbenkian chegava à vila. O som do motor a abrandar na praça, a ca...