Na cidade, quando falta a luz, normalmente é uma questão de minutos até começarmos a ligar para alguém para perceber o que se passa. Na aldeia, a história pode ser um pouco diferente.
Há uns dias, estava em casa ao fim da tarde quando, de repente, tudo ficou às escuras. Primeiro pensei que fosse apenas em minha casa. Fui ao quadro eléctrico, confirmei que estava tudo bem e percebi que o problema era outro.
Olhei pela janela. As casas da rua estavam todas às escuras. O silêncio que se seguiu foi quase estranho. Sem televisões ligadas, sem luzes nas janelas e sem aquele ruído habitual dos aparelhos eléctricos, parecia que a aldeia tinha parado por alguns instantes. Peguei numa lanterna e saí para a rua. Não fui o único a ter a mesma ideia.
Pouco depois, já havia vizinhos à porta de casa. Uns perguntavam se alguém sabia o que tinha acontecido, outros brincavam com a situação. Houve até quem dissesse que, pelo menos, naquela noite ninguém ia ficar agarrado ao telemóvel. E, curiosamente, foi isso que acabou por acontecer. Como não havia televisão nem internet, ficámos ali fora a conversar.
Uma vizinha trouxe duas cadeiras. Outro vizinho apareceu com uma lanterna maior. Alguém comentou que já não se lembrava da última vez que tínhamos estado todos na rua simplesmente a conversar.
Falámos de coisas sem importância. Do tempo, das hortas, de um cão que andava desaparecido e até das obras que estavam previstas para uma estrada ali perto. Nada de extraordinário. Mas foi uma daquelas noites que ficam na memória.
Ao fim de algum tempo, a electricidade voltou. As luzes acenderam-se todas ao mesmo tempo e, quase imediatamente, cada pessoa começou a regressar a casa.
Foi curioso. Passámos bastante tempo a desejar que a luz voltasse e, quando voltou, pareceu que a conversa também tinha chegado ao fim.
Fiquei alguns minutos à porta, a pensar nisso. Vivemos rodeados de formas de nos mantermos ocupados e em contacto com os outros, mas basta faltar a electricidade para percebermos que, afinal, não precisamos de grande coisa para conversar. Às vezes, basta uma rua, algumas cadeiras e uma noite inesperadamente escura. E talvez seja uma das coisas de que mais gosto na vida numa aldeia: ainda há momentos em que uma pequena coisa que corre mal acaba por juntar toda a gente.
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